O que o Conselho Regional de Psicologia disse sobre esta ação:

“A ação policial, chamada de Ação Integrada Centro Legal e que está sendo realizada desde o dia 2 de janeiro, foi classificada pelos parlamentares presentes de “tresloucada”, “cruel” e “covarde”. “O que está acontecendo na região é uma tortura sistemática, contínua e permanente. Essa é uma ação criminosa praticada pelo Estado. É preciso que haja ações éticas, inteligentes e humanas: implementação de uma rede com Consultórios de Rua, Internação para casais e CAPS AD”, defendeu o Padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral dos Moradores de Rua.

Nos últimos dias, os principais jornais da capital paulista publicaram informações que comprovam que a cidade não possui uma rede efetiva de atendimento aos usuários que desejam se tratar. Ou seja, não há vagas necessárias para o número de pessoas que as procuram. Reportagem veiculada em 10 de janeiro pela Folha de S.Paulo, relata que usuários que buscaram tratamento esperaram por horas até a internação. A maioria desistiu. Enquanto a polícia militar reforça, em imediato, o número de policiais presentes na região, contando com o reforço até da Rota, o complexo de atendimento da prefeitura aos usuários ficará pronto apenas em março. A ação na cracolândia começou sem que houvesse nenhum tipo de centro que acolhesse os usuários retirados das ruas.

O coordenador do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria de SP, Carlos Weiss, afirmou que a operação policial na região central viola o direito dos cidadãos. “Somos favoráveis à soluções que busquem o bem estar da população. Mas não podemos compactuar com situações em que a segurança pública se distancia dos direitos humanos”, ponderou. A Defensoria está com um posto móvel na região e vem recebendo diversas denúncias de violações. Uma delas é de uma menor de idade, que foi atingida por um tiro de borracha na boca, o que gerou boletim de ocorrência como crime de tortura.

Ao final da audiência, alguns encaminhamentos foram tomados. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara vai cobrar explicações do prefeito e governador de São Paulo sobre a ação; parlamentares e entidades presentes na audiência, irão redigir um documento e encaminhá-lo ao Executivo municipal e estadual, exigindo a suspensão imediata das atividades policiais; haverá também a criação de um fórum com todas as entidades envolvidas para discutir problemas e ações comuns; todos os documentos e notícias divulgadas sobre a ação da polícia na região também serão encaminhados aos órgãos nacionais e internacionais de defesa de direitos humanos.

Os movimentos sociais e entidades também estão se mobilizando contra a ação. Neste sábado, 14 de janeiro, a partir das 14h, o coletivo DAR (Desentorpecendo a Razão) organiza o “Churrasco da Gente Diferenciada” na esquina das ruas Helvétia com a Dino Bueno; já no dia 25, aniversário de SP, entidades estão mobilizando uma passeata (ainda não há local definido para o ato).

O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP) e o Conselho Federal de Psicologia repudiam a ação policial organizada pelo Estado no centro de SP. O CRP SP entende que uma verdadeira política de combate ao crack deve ser realizada de maneira intersetorial, envolvendo segurança pública, saúde e assistência social. Criminalizar os usuários de drogas, tratando-os como caso de polícia, não irá, de fato, resolver a questão. ”

Fonte

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Comentários em: "“Cracolândia”" (2)

  1. A limpeza do crack para a copa

    A turbulente onda higienista da guerra contra o crack, na metrópole paulista, pode nos fazer repensar políticas e posicionamentos frente as causas e consequências deste fenômeno tão legitimamente humano, o consumo de substâncias alteradoras de consciência. Preocupante é imaginarmos a intenção e o rumo que tomarão tais atitudes. Será que o Estado ignora os diversos estudos antropológicos comprovando que em todas as civilizações houveram consumos destas substâncias, para acreditar, que haverá uma possibilidade da extinção do consumo de crack nas ruas da capital?
    Fica muito difícil imaginarmos o controle do uso de uma substância, quando esta é considerada ilícita, a ponto que, do contrário, poderia-se avaliar a qualidade da própria substância e os locais de uso contingênciados, reduzindo, inclusive, os gastos em saúde pública.
    Não sabemos se é mais aterrorizador presenciarmos, diariamente, usuários de crack vagando pelas ruas do centro como zumbis, numa situação claramente sem controle, ou se a angústia maior toma-nos ao observar discursos alegando que tudo se resolverá, a longo prazo, com medidas de atenção nos centros psicossociais, onde de fato a causa não pode ser trabalhada, e o que resta é lidar com as consequências. Não duvidemos da eficiência destes setores, no entanto lidar com a ponta do problema não nos parece a atitude mais inteligente a ser tomada.
    A política repressiva ignora a forma orgânica da sociedade, onde tal fenômeno poderia ser encarado com um sintoma. Uma pandemia que excede inclusive a questão do próprio consumo de drogas. O funcionamento social psicótico, fora de controle que ultrapassa inclusive a questão de posses e poderes econômicos. O mundo inteiro sofre com as consequências da proibição das drogas, independente de sua posição econômica, quiçá por que esta acarreta consigo, não somente o fenômeno do contato do usuário com a substância, mas a violência, o tráfico de armas e de pessoas, o trabalho ilegal, etc. Certamente as drogas são mais lucrativas enquanto estão proibidas.
    Não sabemos precisamente se a legalização aumentaria consideravelmente o número de usuários. Assim, também, não nos parece óbvio que a migração de preferências por determinada substância, seria estimulada se não houvesse a proibição. Do contrário, talvez o clichê ainda esteja em uso, onde o proibido estimule o desejo.
    Porém, organizar-se em um combate contra dependentes químicos, descentralizando os albergues, e consequentemente os moradores de rua, desconsiderando questões centrais do problema, além de desleal e injusto, legitima o abuso do Estado quanto ao desrespeito civil e moral de cidadania, numa democracia sanitarista, onde a utopia e a falta de inteligência elitista, pinta a nova paulicéia do Brasil fu-turista.

    Felipe Foresto (psicólogo)

    • Carla Egídio disse:

      Excelente sua argumentação Felipe.
      Muito obrigada pela colaboração… realmente precisamos repensar algumas posições e ir além do que está supostamente claro aos nossos olhos, sendo que muitas vezes se trata de conformismo e manipulação.

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